João Abel Manta, cartunista, arquitecto, desenhador, pintor, artista plástico, democrata, amante da liberdade e sócio fundador do Hot Clube de Portugal
 
João Abel Manta 1927 - 2026

 

O Luiz Villas-Boas era um primo da parte da minha mãe. Desde novo que ficámos muito amigos porque eu gostava de Jazz e ele também era um interessado e tinha muitos discos dos grandes músicos. Como eu tinha muita liberdade dos meus pais, ia a Paris sempre que podia e levava sempre uns conselhos do Luiz para comprar, ou ouvir, isto ou aquilo.
Quando ele abriu o Hot Club eu fui um dos primeiros sócios. Ainda me lembro bem desse episódio com muita piada: estávamos em casa do (António) Sena da Silva quando o Luiz apareceu a dizer que precisava de cinquenta assinaturas para fundar o Hot Club. Até inventei e preenchi uns quantos nomes e assinaturas a mais nessa folha de papel para o ajudar! Foi assim que nos tornámos sócios do Hot Club, acho que ainda no final dos anos 40
, disse a rir.

João Abel Manta era um amante da música, de toda a música, gosto que tinha herdado dos pais, e no seu extenso catálogo encontramos figuras como Debussi, Stravinsky, Pedro de Freitas Branco, Domingos Bomtempo, Bela Bartok, mas também Django Reinhardt e Boris Vian, entre as centenas de retratados, figuras da cultura, músicos, artistas, e também políticos.

João Abel Manta nasceu em 1928, e é considerado o maior cartoonista português, a par do percursor Raphael Bordallo Pinheiro, sendo que a sua actividade se espalha pela arquitectura (formado pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa), que foi trocando a partir dos anos 50 pelas artes plásticas, numa multiplicidade de áreas que inclui a pintura e a ilustração, mas também a cerâmica, tapeçaria, azulejo e mosaico e gravura, cenografia, e outras, numa obra multifacetada de mais de sessenta anos. Homem de enorme cultura, desde muito cedo que convivia com figuras como Manuel Mendes ou Aquilino Ribeiro, amigos dos seus pais, e muito cedo também se trava de amizade pelos pintores Sá Nogueira e José Dias Coelho, e se integra na intelectualidade lisboeta ligada aos movimentos de esquerda que se opunham à ditadura, e participa no MUD Juvenil.
João Abel Manta destaca-se em particular nas artes plásticas, sobretudo no desenho, e colagem, onde se afirmou bastante cedo, com trabalhos de relevo datados já da década de 1940 e, em 1961, venceu o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian com O Ornitóptero; o primeiro de inúmeros prémios e exposições nacionais e internacionais.
Mas a área em que se distinguiu de forma mais assinalável terá sido a do cartoon. A sua atividade como cartoonista estende-se dos anos 50 ao início dos anos 90, tendo nos anos 70 sido publicado regularmente na imprensa, e sendo notáveis alguns dos trabalhos que realizou para o Diário de Notícias, Diário de Lisboa e para o Jornal de Letras, Artes e ideias.
Arguto e justo, com ironia e crítica, com generosidade e alegria também, antes e depois, celebrando a queda da ditadura; à visão do político engajado juntava-se amiúde a ingenuidade e dúvida do povo. Citando José Cardoso Pires: «Nenhum pintor daqui e de agora resumiu com tantas subtilezas a temperatura social e política do fascismo agonizante» e «estão em causa os desastres e os grotescos duma burguesia, a nossa, com os seus emblemas e heróis». (João Abel Manta) «aponta à História, ao monumento e em particular à procissão provinciana da nossa burguesia intelectual».
É dele o que é provavelmente o mais conhecido cartaz do 25 de Abril de 1974, que juntava um popular a um soldado, e que tinha como legenda «MFA, Povo, Povo, MFA». Artista singular, profícuo, de uma inventiva sem peias ou limites.
A 25 de Abril de 2004, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem da Liberdade.
De entre as muitas centenas de desenhos de João Abel Manta escolhemos alguns menos conhecidos, mas significantes da arte maior de João Abel Manta e do seu amor pela música, e que representam o guitarrista de jazz Django Reinhardt (na capa da Hot News), o escritor, divulgador de jazz e radialista, também músico, e figura central da cultura dos anos 50, Boris Vian (aqui ao lado), e ainda Pedro Freitas Branco X Igor Stavinsky (contracapa da Hot News).

Texto realizado com o auxílio precioso de uma das orgulhosas netas de João Abel Manta, Mariana, que gentilmente, também, nos cedeu os desenhos que a Hot News publica.

     
Django Reinhardt
João Abel Manta, lápis e carvão, 1948/50
Boris Vian
João Abel Manta, lápis e carvão, 1948/50

Igor Stravinsky X Luís de Freitas Branco
João Abel Manta, lápis e carvão, circa 1953

Homenagem ao MUD Juvenil reprimido por Salazar nos anos 40 © João Abel Manta, 1974 Cartaz evocativo da Revolução © João Abel Manta, 1974
 

Texto e imagens publicados na Hot News 19, 2025